Resgate e suspensão inerte
Pendurado e imóvel, houve quase desmaio a partir de 13,4 minutos. Plano de resgate, quem sobe para buscar e por que a vítima fica deitada.
Estamos narrando o Manual do Arborista inteiro na voz do Daniel, da 3X3, e liberando por fases. Esta faixa ainda está sendo gravada.
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Escalada e técnicas verticais. Faixa 13 de 13: Resgate e suspensão inerte.
5 minutos. É o tempo que o campeonato mundial da ISA dá para subir por uma corda já instalada e descer um manequim de 60 a 80 quilos pendurado a uns 7,5 metros. E lá a velocidade só desempata: a nota premia a avaliação e o manuseio da vítima. Na sua obra, quem fica pendurado na cadeirinha é o seu colega, e o corpo dele não espera. Resgate não é improviso: é plano, equipamento e gente treinada no chão.
A primeira regra é simples: ninguém sobe sozinho. Segundo o HSE britânico, toda escalada de árvore precisa de pelo menos 2 pessoas presentes, e uma delas no chão disponível, competente e equipada para um resgate aéreo sem demora. O guia técnico da Arboricultural Association, no rascunho de consulta de 2018, vai além: um resgatista para cada escalador. Com dois escaladores na mesma árvore, um pode ser o resgate do outro, porque costuma chegar mais rápido.
Lembra do podador autônomo da primeira faixa, que caiu com a motosserra e ficou pendurado a cerca de 5 metros, até os bombeiros o descerem cortando a corda? Ele chegou inconsciente ao hospital. O que faltava ali é justamente o assunto desta faixa: procedimento de resgate aéreo e inspeção do equipamento. Foi isso que levou à multa do HSE.
No Brasil, a NR 35 trata o resgate no plano de emergência, item 35.7.1. A empresa deve considerar os perigos da operação de resgate, a equipe necessária e o seu tamanho, o tempo estimado e as técnicas e equipamentos disponíveis, de forma a reduzir o tempo de suspensão inerte do trabalhador. A Análise de Risco também deve planejar o resgate com esse objetivo, no item 35.5.5.1, letra k. E quem resgata precisa estar capacitado em resgate e primeiros socorros.
Um detalhe que muda a leitura: a NR 35 não fixa tempo máximo em minutos nem número mínimo de pessoas para o resgate. Ela manda a empresa estimar e dimensionar. A equipe mínima de 2 trabalhadores aparece só no Anexo I, de acesso por cordas, e esse anexo exclui a arboricultura.
O conteúdo mínimo do plano de resgate é a lista de oito itens do guia da Arboricultural Association que você ouviu na faixa Antes de subir: do resgatista designado pelo nome ao kit com torniquete e gaze hemostática, passando pelos pontos de ancoragem identificados e, quando possível, pré-instalados. E o mesmo guia diz que uma linha de acesso separada, deixada na árvore, deve ser a primeira consideração.
O plano muda conforme o serviço avança: num desmonte, a copa vai sumindo e as ancoragens também. A Arboricultural Association pede treino de resgate pelo menos a cada 6 meses, para toda a equipe. A TCIA americana pede pelo menos uma vez por ano, documentado, e sempre com manequim, nunca com pessoa. E há uma regra absoluta: ninguém tenta resgatar quem está em contato com a rede elétrica antes de ela estar comprovadamente desenergizada.
Na hora, a ordem conta. Primeiro, a segurança de quem resgata: o galho está quebrado, a ancoragem aguenta resgatista e vítima? Segundo, chamar socorro cedo, SAMU 192 e Bombeiros 193, informando altura, estado da vítima e acesso ao local. Terceiro, subir pela linha pré-instalada ou pelo método que o plano previu. No alto, neutralizar a motosserra, conectar a vítima diretamente ao cinto do resgatista e controlar hemorragia grave com torniquete ainda lá em cima.
O erro clássico vem agora: cortar o talabarte ou a corda com a vítima ainda carregando peso nele. Primeiro, o peso da vítima passa para o sistema de descida; só depois se solta qualquer coisa dela. Um nó de fricção com duas pessoas precisa de fricção adicional, e o equipamento de escalada pode não ser homologado para resgate: confira o manual do fabricante. Depois do resgate, o equipamento usado pode ter de ficar em quarentena até ser inspecionado.
Os métodos têm nomes que você vai encontrar no treino: descer junto pela corda íntegra da vítima, passar a vítima para o sistema do resgatista, contrapeso, içamento e descida controlada a partir do chão. No sistema de corda simples com ancoragem na base liberável, alguém no solo pode descer o escalador sem ninguém subir. Mas isso só funciona se o sistema foi montado assim antes e se a equipe de solo treinou.
Agora, o motivo da pressa. A NR 35 chama de suspensão inerte a situação do trabalhador que fica suspenso pelo sistema de segurança até o socorro. Num estudo de Rauch e colegas, de 2019, com 20 voluntários saudáveis em cadeirinha e 40 testes, 30 por cento dos testes terminaram em pré-síncope, o quase desmaio, entre 13,4 e 59,7 minutos, com média de 44,7. O sangue represou nas pernas de todos, mas o colapso foi vagal: queda súbita de frequência cardíaca e de pressão.
A revisão de Pasquier e colegas, de 2011, relata tolerância média de cerca de 14 minutos no cinto de corpo inteiro, 6 no peitoral simples e 1,6 no cinto abdominal. A comissão médica da ICAR revisou 23 estudos em 2023: o tempo vai de poucos minutos a várias horas, e o início pode ser súbito, sem fase de aviso. A TCIA cita síncope com apenas 10 minutos de suspensão. Não existe tempo seguro, e a vítima dizer que está bem não garante nada.
Enquanto o resgate chega, quem está consciente e pendurado deve mexer as pernas, empurrar com os pés contra o tronco ou pisar numa alça de pé para ativar a bomba muscular. Se a vítima não reage, o primeiro resgatista que chegar deve elevar as pernas dela. A ICAR manda resgatar o quanto antes, mesmo sem sintomas. Depois de mais de 2 horas pendurada, há risco de hipercalemia, rabdomiólise e lesão renal, e a vítima deve ir a hospital com diálise de urgência.
No chão, a vítima fica deitada de costas, com os protocolos padrão de suporte de vida. A antiga regra de mantê-la sentada por 20 a 40 minutos vem de uma revisão de 2002 e não tem evidência; o HSE, no relatório RR708 de 2009, já mandava não mudar o primeiro socorro padrão. Mortimer e Zafren, em 2020, e a ICAR, em 2023, recomendam deitar imediatamente. Registre a divergência: a TCIA, em 2024, ainda fala em posição semissentada, tronco a cerca de 30 graus, por 30 minutos. Este manual segue a ICAR.
Aqui fecha a parte de escalada e rigging. Antes de subir, abra no ARBOO a ficha da espécie para conhecer a madeira daquela árvore e estimar o peso das peças; na dúvida, use 1 tonelada por metro cúbico. Monte no ARBOO a análise de risco, a APR, e os documentos do serviço, com o plano de resgate dentro. E lembre: técnica vertical se aprende com instrutor e treino prático. O áudio prepara a cabeça. Quem prepara a mão é o treino.