Quem cai e por quê
Nos Estados Unidos, 93 mortes por ser atingido contra 50 por queda. O que mata no trabalho em árvore e por que ninguém sobe sozinho.
Estamos narrando o Manual do Arborista inteiro na voz do Daniel, da 3X3, e liberando por fases. Esta faixa ainda está sendo gravada.
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Parte quatro: escalada, técnicas verticais e rigging. Prenda a corda na base do tronco e o galho lá em cima passa a carregar cerca do dobro do seu peso. Nesta parte, as regras no Brasil e lá fora, cadeirinha, corda, conectores, os sistemas de corda dobrada e corda simples, os nós de fricção e de amarração, a física e a técnica do rigging, e o resgate. Técnica vertical se aprende com instrutor e treino; aqui você prepara a cabeça.
Escalada e técnicas verticais. Faixa 1 de 13: Quem cai e por quê.
Duzentas e quarenta e três mortes em quatro anos, só nos Estados Unidos, no trabalho com árvores. E a maior parte delas não foi queda. A TCIA, entidade americana do setor que publica a revista Tree Care Industry, contou essas mortes entre 2020 e 2023, perto de 61 por ano. A regra que atravessa toda esta parte do manual nasce desses números: nunca dependa de um único ponto, nem de uma única pessoa, quando você está pendurado numa árvore.
Comece pelo que mais mata. A maior causa foi ser atingido: 93 mortes, cerca de 38 por cento, a maioria por árvore ou galho. Depois vieram as quedas, com 50 mortes, cerca de 21 por cento, sendo 26 de árvores e 19 de cestos aéreos. Em terceiro lugar, o contato elétrico, com 37 mortes.
O levantamento da OSHA, a agência federal americana de segurança do trabalho, na sua Região Três, que cobre cinco estados americanos, mostra a mesma ordem. Entre os anos fiscais de 2018 e 2022, foram 75 mortes em poda e remoção. Ser atingido respondeu por 63 por cento, quedas por 13 por cento e eletrocussão, perto de linhas aéreas, por 11 por cento. E 73 por cento das mortes e internações aconteceram em empresas com até 10 empregados.
O peso das quedas muda conforme a fonte. Outro levantamento da própria TCIA, só sobre quedas, escorregões e tropeços, diz que as quedas respondem por cerca de um terço das mortes no trabalho em árvore e por quase metade dos acidentes graves não fatais, e que perto de dois terços envolvem escaladores. Seja um quinto, seja um terço, a leitura é a mesma: a queda é a segunda causa, e quem mais cai é quem sobe. No Brasil, não encontramos estatística nacional específica de mortes de arboristas ou podadores.
Repare no que isso significa para o seu dia. Se ser atingido mata mais do que cair, o rigging, a zona de queda dos galhos e o corte direcional pesam tanto quanto a sua cadeirinha. E a eletricidade cobra o seu preço: das 37 mortes por contato elétrico na contagem da TCIA, 14 envolveram ferramenta condutora ou cesto não isolado. Esta parte trata da escalada, mas não esquece o que acontece embaixo e em volta dela.
As quedas de escalador seguem um padrão. A motosserra cortando a única fixação não é caso isolado: a TCIA registra uma queda fatal de cerca de 23 metros pelo mesmo motivo. Outros erros se repetem. Cortar o galho em que a própria corda está ancorada. Um ponto de ancoragem que falha sob carga dinâmica, com queda de cerca de 9 metros. E desatar o nó de fricção para se reposicionar, com queda de cerca de 10,7 metros.
Em Michigan, outro escalador caiu de cerca de 10,7 metros porque o nó que ligava a corda à cadeirinha se desfez. Estava mal acabado, sem nó de bloqueio, e a ponta desfiada estava presa com restos de fita isolante. Note o que esses casos têm em comum: em quase todos, o escalador soltou, cortou ou nunca chegou a ter a segunda fixação. A falha veio de uma decisão, não de uma peça.
A segunda regra de base é humana. O HSE, órgão do governo britânico para saúde e segurança no trabalho, recomenda pelo menos duas pessoas presentes em toda escalada de árvore, e uma delas, no chão, disponível, competente e equipada para fazer um resgate aéreo sem demora. O guia técnico da Arboricultural Association, do Reino Unido, num rascunho de 2018, vai além: um resgatista para cada escalador. E a comissão médica da ICAR, entidade internacional de resgate em montanha, resume no seu consenso de 2023: trabalho em corda nunca se faz sozinho.
O preço de subir sem plano aparece num caso julgado pelo HSE. Um podador autônomo caiu durante uma poda com motosserra e ficou pendurado a cerca de 5 metros. Os bombeiros cortaram a corda para descê-lo, e ele chegou inconsciente ao hospital, com fraturas no crânio, na coluna, nas costelas e na perna. Não havia procedimento de resgate aéreo nem inspeção do equipamento. A multa foi de 5 mil libras, mais 2.495 libras de custas.
Esta parte segue um caminho. Primeiro, as regras no Brasil e lá fora. Depois o equipamento: cadeirinha, corda, conectores e capacete. Em seguida, o que se faz antes de subir, os dois grandes sistemas de escalada, a movimentação e o corte na copa, os nós, o rigging com a sua física e a sua equipe, e por fim o resgate. Nenhum áudio substitui treino prático com instrutor: aqui você entende o porquê, e o treino ensina as mãos. Guarde três ideias. O que mais mata no trabalho em árvore é o que cai em você. O que mais derruba escalador é cortar ou soltar a própria fixação. E ninguém sobe sem alguém no chão pronto para ir buscá-lo.