A roupa que trava a corrente
40 por cento das lesões de motosserra são em pernas e pés. Como a calça anticorte para a corrente e como escolher a classe certa.
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Técnicas de corte. Faixa 3 de 11: A roupa que trava a corrente.
Estado de Washington, Estados Unidos, novembro de 2019. Um encarregado de equipe corta uma cicuta fina, de uns 10 centímetros. A corrente agarra nos galhos. Ele acelera enquanto puxa a serra para soltá-la. A serra se solta de repente, e a ponta volta na direção da perna esquerda, logo abaixo do joelho. A perneira dele está danificada. Há perneiras novas ali mesmo, no local, e o resto da equipe está usando as suas. A dele, não foi trocada.
O resultado foram 11 pontos e semanas longe do trabalho. E a perna não foi acaso. Pela Clemson Extension, das lesões de motosserra, 40 por cento são em pernas e pés, 35 por cento em mãos e dedos, 14 por cento em tronco e braços e 11 por cento em cabeça e pescoço, essas geralmente vindas do rebote. Cerca de 76 por cento são lacerações. E a Clemson registra que essas lesões se concentram no lado esquerdo do corpo, acima da cintura.
Na cena de 2019, foi a perna esquerda, logo abaixo do joelho. Por que justamente o lado esquerdo? Num estudo com pacientes feridos fora do trabalho, atendidos na Turquia, quase quatro em cada cinco lesões foram do lado esquerdo do corpo. Isso é coincidência, ou tem a ver com o jeito que a gente segura a máquina?
Tem a ver com a pegada. O estudo de Özdeş e colegas, com 185 pacientes, achou 78,4 por cento das lesões no lado esquerdo. A sua mão esquerda fica no punho frontal, e a perna esquerda costuma estar à frente, na linha do sabre. É por isso que existem luvas com proteção só na mão esquerda. Nos Estados Unidos, entre 2018 e 2022, foram cerca de 128 mil atendimentos de pronto-socorro por motosserra, perto de 70 por dia.
Agora vem a pergunta que todo mundo faz na primeira vez que veste uma calça anticorte. Como é que um tecido segura uma corrente que corre a 20 metros por segundo? É o que a STIHL MS 191 T, de punho superior, informa em aceleração plena, com 21,7 metros por segundo de máxima. A calça é feita de algum material que a lâmina não consegue cortar?
Não, a calça não segura a corrente: ela entope o pinhão. A camada de fora, lisa e resistente, é cortada. Por baixo há camadas de fibras longas e soltas, como poliéster e Kevlar. A corrente arranca essas fibras, elas se enrolam no pinhão de acionamento, o pinhão trava e a corrente para. A norma prevê também deslizamento e frenagem. Mas sujeira e óleo fazem a fibra grudar, e aí o entupimento falha. Lavar conforme o fabricante é item de segurança.
Duas regras saem daí. A calça que já parou uma corrente vai para o lixo, porque as fibras que trabalharam não voltam. E a proteção não é absoluta: o tecido freia e entope, mas não garante que não haja corte. E na cena de 2019 nem essa proteção parcial estava inteira: a perneira estava danificada. A lição registrada pelo órgão de Washington: perneira danificada se troca, não se acelera para soltar uma serra presa, e o aperto da corrente se previne.
Então qualquer calça com etiqueta anticorte serve para qualquer serra? Na loja aparecem números, classes, tipos com letras, e cada peça tem a sua norma: calça, luva, bota e jaqueta. O que o arborista precisa conferir antes de comprar, e o que muda entre trabalhar no chão e trabalhar na copa?
A norma é a EN ISO 11393, que substituiu a EN 381. Classe 1 é para corrente a 20 metros por segundo, classe 2 a 24 e classe 3 a 28. A classe 0, de 16, não vale para calça. Escolha pela velocidade nominal no manual da sua serra, não pelo número da EN ISO 11681, que é o nominal mais 33 por cento. Uma STIHL MS 211 C, a 18,6 metros por segundo, pede classe 1. A fabricante SIP lembra que, acima de 40 graus, uma classe menor pode ser mais segura, porque o calor tira a concentração.
Na calça, o tipo A protege a frente, em 180 graus. O tipo B é a perneira. O tipo C dá 360 graus, e é o que o HSE, o órgão britânico de saúde e segurança no trabalho, recomenda para trabalho na copa. Botas anticorte têm classes de 1 a 3, e polaina só por cima de bota de segurança. A concessionária CEMIG pede ainda capacete com protetor facial, óculos, abafador tipo concha e luvas para motosserra. Equipamento ajuda, mas não ensina: motosserra se aprende com instrutor, prática e a capacitação da NR 12.
Para levar: Um. A classe da calça se escolhe pela velocidade de corrente que está no manual da sua serra. Dois. Calça ou perneira danificada, suja de óleo ou que já parou uma corrente sai de uso na hora. Três. Corrente presa não se solta acelerando: alivie o aperto com cunha ou alavanca.