Rigging: a física
100 quilos de madeira com o freio travado põem perto de 1,3 tonelada no bloco. A conta de bolso para saber antes de cortar.
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Escalada e técnicas verticais. Faixa 11 de 13: Rigging: a física.
100 quilos de madeira, o freio travado na sua mão, e o bloco lá em cima sente perto de 1,3 tonelada, uns 12,7 quilonewtons. Cada quilonewton vale perto de 100 quilos. A peça não ficou mais pesada. O que mudou foi a parada: no rigging, a força nasce de quão rápido você segura o que está caindo. A conta que vem a seguir é para fazer de cabeça, antes de amarrar a primeira peça.
O relatório RR668 do HSE britânico, de 2008, mediu no bloco, em média, de 8 a 12 vezes o peso da peça, em descidas com o freio travado. O multiplicador cai à medida que a massa sobe. Com esses dados, Detter, da Arboricultural Association, propôs uma regra de bolso. No bloco: 8 vezes a massa em quilos, mais 500, em quilos-força. Na corda de descida: divida esse resultado por 1,8. Uma peça de 300 quilos dá cerca de 28 quilonewtons no bloco e 16 na corda.
A regra foi conferida em 22 quedas, com peças de até 750 quilos. Subestimou em menos de 10 por cento e superestimou em no máximo cerca de 25 por cento. Mas ela vale para o que foi testado: freio travado, corda de 12 a 14 milímetros, dupla trança ou kernmantle. Corda mais rígida, outra trança ou corda mais curta podem dar picos maiores. O próprio Detter pede cautela e avaliação de pessoa competente.
Na conta, quem manda é a massa. Num estudo de Kane, Brena e Autio, de 2009, o fator de queda, aquela razão entre a queda e a corda disponível que o escalador conhece, não previu a força no bloco. Nas pontas, a altura de queda explicou só 3,2 por cento da variação, contra 94 por cento explicados pela massa. Atenção à ressalva: isso vale para o rigging, com corda longa e algum deslizamento. Não vale para o seu sistema de escalada, e não quer dizer que a queda não importa.
Kotek e Neruda, da Mendel University, listaram em 2025 o que mais reduz a força de impacto. São quatro pontos. Primeiro, a forma de amarrar a carga. Segundo, peça mais leve. Terceiro, queda mais curta. Por fim, mais corda no sistema. Some a isso o choque: segundo a fabricante Samson, parar um objeto em queda pode gerar 3 vezes o peso dele ou mais. E a carga de trabalho declarada não vale para corda que já levou choque.
Agora suba o olhar até o ponto de rigging. Na polia, as duas pernas da corda puxam a ancoragem: a que segura a peça e a que desce até o freio. Com as pernas paralelas, o ponto recebe cerca de 2 vezes a tensão da corda, segundo Kane, na revista TCI. Abrindo o ângulo entre as pernas, a carga cai: com 90 graus, cerca de 141 por cento; com 120 graus, 100 por cento. Donzelli, em 1999, mediu de 7,5 a 10,5 por cento acima do dobro, e atribuiu o excesso ao atrito.
Essa força também não puxa reto para baixo. Detter observou o pico atuando a cerca de 30 a 40 graus do eixo do tronco. Isso cria flexão lateral, capaz de derrubar uma ancoragem no fuste. Por isso a ANSI Z133 pede que os pontos de rigging sejam avaliados por arborista qualificado, olhando as forças na inserção do galho e nas raízes, e que a equipe seja treinada para estimar essas forças.
O pior cenário é o rigging negativo, com o bloco abaixo da peça. Ela cai em queda livre até a corda pegar. Segundo a WesSpur, uma peça de 100 libras, uns 45 quilos, pode facilmente gerar 1.000 libras de força ou mais: perto de 450 quilos-força, cerca de 4,5 quilonewtons. Uma ancoragem mais alta, com linha positiva, permite pré-tensionar a corda antes de soltar a peça, e isso reduz o pico.
Qualquer regra começa pelo peso da peça. Madeira verde pesa cerca de 900 a 1.000 quilos por metro cúbico. Pela Penn State Extension, a média das folhosas dos Estados Unidos fica em torno de 930, de uns 660 na tília a uns 1.090 na macieira. Para espécies urbanas brasileiras, como sibipiruna, oiti, ipê ou fícus, falta fonte com densidade de tora viva. A regra de bolso conservadora é 1 tonelada por metro cúbico.
Na prática, uma tora de 30 centímetros de diâmetro por 1,5 metro de comprimento pesa cerca de 100 quilos. Uma de 40 centímetros por 2 metros, cerca de 240 quilos. Meça o diâmetro no meio da peça, que é a medida mais fiel quando o tronco afina. Agora junte com a regra de Detter: aquela tora de 100 quilos, com o freio travado, já leva o bloco à casa de 1,3 tonelada.
Falta comparar com o que o equipamento aguenta. A carga de ruptura mínima, o MBS, é onde a peça quebra. A carga de trabalho, a WLL, é o MBS dividido por um fator de segurança. Na prática de arboricultura da Nova Zelândia, a corda trabalha a 10 para 1 e o bloco a 5 para 1, e por isso a corda costuma ser o elo fraco. Uma corda de 6.000 quilos de ruptura fica com 600 de trabalho, e com 300 se você descontar a metade por nós e desgaste.
Os fabricantes não usam o mesmo fator. A Samson recomenda no mínimo 5 para 1 em uso geral e 10 para 1 em corda de vida, e mais quando há choque. Dois Port-a-Wrap grandes parecidos declaram cargas diferentes: o da Notch, uns 900 quilos com fator 10 para 1; o da Buckingham, uns 1.630 quilos com fator 5. Uma Stable Braid de 12 milímetros rompe com 47 quilonewtons e trabalha com 6,5, um fator perto de 7 para 1. Com uma peça de 300 quilos e o freio travado, ela trabalha a mais de 2 vezes essa carga.
A ANSI Z133 manda respeitar a carga de trabalho e treinar a equipe para estimar forças, mas não fixa um número de fator. Então a regra de campo é sua: leia sempre o fator junto com a WLL, dimensione pela corda e faça a conta antes do corte, não depois. No rigging, a peça pesa o que pesa. Quem multiplica é a parada.