Abelhas e vespas na árvore
Em 2023, abelhas causaram mais acidentes que cobras no Brasil. Como reconhecer o ninho antes de subir, o que diz a lei e o que fazer num ataque.
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Abelhas e vespas. Faixa 1 de 2: Abelhas e vespas na árvore.
Em 2023, o Brasil registrou 33.317 acidentes com picada de abelha e 32.420 com serpentes. A abelha passou a cobra. Os dados são do Ministério da Saúde, divulgados pela Agência FAPESP em outubro de 2025. Entre 2013 e 2023, foram mais de 206 mil casos. Para quem trabalha em árvore, isso não é estatística distante: o oco que você vai cortar, o galho que você vai sacudir e o barulho da motosserra estão exatamente onde as abelhas e as vespas vivem.
O nosso checklist de poda já manda verificar vespas, abelhas, formigas e morcegos antes de subir, e perguntar se foram vistos ninhos ativos, colmeias ou vespeiros. Mas verificar o quê, exatamente? E quando você encontra, o que muda no serviço? Nem todo inseto que sai de um oco é perigoso, e nem todo ninho pode ser destruído. A primeira tarefa é saber com quem você está lidando.
São três grupos que o arborista encontra com frequência. Primeiro, a abelha africanizada, a do mel, que tem ferrão e ataca em massa. Segundo, as abelhas nativas sem ferrão, como a jataí, a mandaçaia e a uruçu, que não ferroam e são protegidas por lei. Terceiro, os marimbondos, as vespas sociais, que ferroam e alguns são muito agressivos. Cada grupo pede uma conduta diferente.
A abelha africanizada nasceu de um acidente. Em 1956, abelhas africanas foram trazidas ao Brasil por serem mais produtivas e resistentes a doenças. Em 1957, cerca de 25 rainhas escaparam de um apiário em quarentena, onde hoje é o campus da Unesp em Rio Claro, em São Paulo. Elas cruzaram com as abelhas europeias e deram origem à africanizada, com instinto de defesa forte. Hoje ela é a principal produtora de mel do país, e também a principal causa dos ataques.
O que provoca a africanizada? Barulho de motor, vibração, cheiro de combustível e movimento brusco perto do ninho, além de gente tentando espantar o enxame. Ou seja: motosserra, roçadeira, soprador, corte de galho e queda de tora. Ela defende uma área bem maior que a abelha europeia e pode perseguir por centenas de metros. Na dúvida, pare o motor e observe. Trânsito constante de abelhas entrando e saindo de um oco, de uma rachadura ou de um galho, e um zumbido contínuo, são sinais de colônia ali dentro.
Como reconhecer a africanizada pelo ninho? Favos de cera clara, pendurados na vertical e lado a lado, dentro do oco ou expostos no galho, e nenhuma estrutura construída na porta: é a abelha do mel. Um cacho de abelhas pendurado num galho é um enxame de passagem, que fica ali por algum tempo e vai embora. Mesmo assim, não mexa. E não tente separar a africanizada da europeia no olho, porque nem especialista consegue em campo. Toda abelha do mel solta na natureza deve ser tratada como africanizada.
Agora, as nativas sem ferrão. O Brasil tem mais de 250 espécies: o levantamento mais recente, de 2023, lista 259. A maioria faz ninho em oco de árvore. Outras fazem ninho exposto em galhos ou ocupam cupinzeiros vazios e frestas de muro. Variam de minúsculas, com uns 3 milímetros, a maiores que a abelha do mel, como a uruçu. A mandaçaia tem listras amarelas no abdômen. A irapuá é quase preta.
Elas não ferroam, mas se defendem. Mordem, enrolam no cabelo, grudam resina no agressor, e a caga-fogo solta um líquido ácido que chega a queimar a pele. Mantêm guardas permanentes na entrada, e muitas fecham a porta do ninho ao anoitecer. Na jataí, os guardas são cerca de 1 por cento da colônia, de 30 a 50 abelhas, e uma parte deles fica pairando na frente do ninho, vigiando. Viu um grupinho de abelhas paradas no ar diante de um buraco no tronco? Provavelmente é uma colônia de nativas.
E aqui entra a lei. Abelha nativa é fauna silvestre. A Lei 9.605 de 1998, a Lei de Crimes Ambientais, no artigo 29, pune quem modifica, danifica ou destrói ninho, abrigo ou criadouro natural, com detenção de seis meses a um ano e multa. Cortar o oco com uma colônia de nativa dentro, sem autorização, pode ser crime. A saída correta é o resgate. A Resolução CONAMA 496 de 2020 prevê o resgate de colônias em áreas de supressão de vegetação ou em risco, sempre com autorização do órgão ambiental.
Na prática: encontrou colônia de nativa no tronco ou no galho que vai cair, pare. Não abra o oco, não corte a seção, não use fumaça nem veneno. Avise o contratante e procure o órgão ambiental do município e um meliponicultor da região para fazer o resgate. Muitas vezes a seção do tronco com o ninho pode ser cortada inteira e levada, desde que isso seja feito por quem sabe e com a autorização em ordem. Confirme sempre a regra do seu estado e do seu município.
E a africanizada? Ela é uma espécie exótica, e a regra é outra. A Instrução Normativa 141 de 2006, do IBAMA, permite que órgãos públicos, empresas habilitadas e o Corpo de Bombeiros, em risco iminente, façam o controle de abelhas sem autorização prévia. Na prática, remover enxame de africanizada é serviço de bombeiro ou de empresa habilitada, não de quem está podando. E essa permissão não vale para as nativas sem ferrão, que continuam fauna silvestre.
Os marimbondos são outro assunto. O marimbondo-tatu, Synoeca cyanea, ocorre em quase todo o Brasil e está entre as vespas sociais mais agressivas. O ninho é um favo preso direto na árvore, coberto por um envelope de papel ondulado, feito de fibra de madeira, com a entrada na parte de cima. Quando é incomodado, ele dá um aviso: raspa as mandíbulas no papel do ninho e faz um barulho característico, como um chiado. Ouviu isso, afaste-se. Vespa pica várias vezes, e não existe soro para veneno de vespa.
Pior ainda é a vespa que não se vê. As do gênero Agelaia fazem ninho sem capa dentro de ocos de tronco, e uma colônia pode passar de dez mil vespas. O corte que abre o oco abre o ninho. Já o ninho de papel, cinza ou castanho, num galho, num beiral ou numa folha de palmeira, é vespa à vista. Num levantamento em praças de Juiz de Fora, quase todos os ninhos estavam entre 2 e 4 metros de altura, justamente na faixa da poda.
E se o ataque começar? As orientações do Corpo de Bombeiros e do Ministério da Saúde são estas. Saia da área imediatamente. Se houver carro ou construção perto, entre e feche portas e janelas. Proteja o rosto e o pescoço com as mãos ou com a roupa. Não pare para lutar, não abane os braços, não grite, não jogue água no enxame. E não pule na água: as abelhas ficam pairando sobre a superfície e picam quando você sobe para respirar.
Lá em cima, na copa, sair correndo não é uma opção. Por isso o ninho precisa ser visto antes da subida, e não no meio do serviço. Se a equipe encontrar sinais de colônia no caminho do escalador, o plano muda antes de alguém subir: outro acesso, outra ordem de cortes, ou o serviço para até a remoção. Se as picadas começarem com você lá em cima, desligue a motosserra e não religue. Desça de forma controlada, sem pular. Combine antes com quem fica no chão o que fazer nessa hora.
Depois das picadas, tire os ferrões o quanto antes. O que importa é a rapidez: quanto mais tempo o ferrão fica na pele, mais veneno entra. Raspar com a unha ou com a borda de um cartão é o jeito mais rápido; não perca tempo procurando pinça. Lave com água e sabão e use compressa fria. Para quem é alérgico, uma única picada pode causar anafilaxia. Falta de ar, inchaço no rosto ou na garganta, tontura ou desmaio: ligue 192, o SAMU.
Quantas picadas são perigosas? Pelo Guia de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, mais de cem picadas num adulto, ou algumas dezenas numa criança, já é envenenamento: o veneno pode destruir músculo e sangue e parar os rins. Por isso quem levou muitas picadas vai para o hospital, mesmo sem alergia e mesmo se sentindo bem. Um soro contra o veneno da abelha, desenvolvido no Brasil pela Unesp, está na fase final de testes e ainda não foi aprovado pela Anvisa.
Se alguém da equipe já teve reação forte a picada, isso se resolve antes do serviço, com o médico dele. A caneta de adrenalina autoinjetável não tem registro na Anvisa e não está no SUS. Quem é alérgico precisa de um plano combinado com o próprio médico, e a equipe precisa saber disso antes de alguém subir na árvore.
Para levar: Um. Antes de subir, procure ninho: trânsito de insetos em oco ou rachadura, zumbido, abelhas pairando na frente de um buraco, favos de cera ou ninho de papel no galho. Dois. Abelha nativa sem ferrão é fauna silvestre: não destrua o ninho, chame o órgão ambiental e um meliponicultor para o resgate. Três. Africanizada ou marimbondo: pare o motor, isole a área e chame os bombeiros, no 193. Quatro. No ataque, saia protegendo rosto e pescoço, nunca pule na água e tire os ferrões rápido. Cinco. Muitas picadas ou sinal de alergia: hospital.