Abate, cunhas e o barber chair
Árvore inclinada a 45 graus, corte horizontal comum, tronco rachado na vertical. O furo, a tira de segurança e as cunhas.
Estamos narrando o Manual do Arborista inteiro na voz do Daniel, da 3X3, e liberando por fases. Esta faixa ainda está sendo gravada.
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Técnicas de corte. Faixa 7 de 11: Abate, cunhas e o barber chair.
Michigan, Estados Unidos, inverno de 2012. Um faz-tudo de quase 60 anos é contratado por um fazendeiro para derrubar um box elder, um bordo, de 0,9 a 1,2 metro de diâmetro. A árvore está inclinada a 45 graus. Ele faz um corte horizontal comum, sem o furo e a tira que o relatório vai recomendar depois: 15 centímetros, a cerca de 0,9 metro do chão. E o tronco começa a rachar na vertical.
Numa árvore inclinada para frente, as fibras de trás já estão sob tensão antes de você encostar a corrente. O seu corte de abate, de trás para frente, vira uma corrida até a dobradiça, e a árvore começa a cair antes de o corte terminar. Em Michigan, a parte rachada prendeu o homem de bruços, e ele morreu. O relatório aponta duas causas: a inclinação forte e a técnica errada.
Barber chair quer dizer cadeira de barbeiro. É o nome que se dá ao tronco que racha para cima e fica de pé no toco, parecendo o encosto de uma cadeira. Mas é só a inclinação que provoca isso, ou existem outros erros de corte que levam ao mesmo lugar?
Pela OSHA, a agência americana de segurança do trabalho, barber chair é a divisão da base da tora na parte final da queda. A árvore muitas vezes continua presa ao toco, e uma lasca sobe e volta com violência. A Husqvarna descreve assim: a madeira racha e metade do tronco salta para trás. As causas listadas pelas fontes são três: boca ou corte de abate mal preparados, segundo o Forest Service; o dutchman, aquele degrau na boca, segundo a OSHA; e boca pequena, que fecha antes de a árvore cair até a metade.
Então, como se corta uma árvore que pende para frente, sem apostar corrida com ela? O relatório de Michigan recomenda duas coisas com nomes estranhos para quem está começando: o furo, em inglês bore cut, e a tira de segurança. O que são, e em que ordem se fazem?
O furo usa a ponta do sabre para atravessar o tronco atrás da dobradiça. Entenda a lógica; a execução se treina com instrutor. Pela OSHA: primeiro, uma boca rasa, de um quarto a um terço do diâmetro. Segundo, o furo com o sabre horizontal, um pouco acima da boca, cortando para trás e deixando boa dobradiça e madeira de retenção. Terceiro, o furo do outro lado, encontrando o primeiro e deixando a tira atrás. Por fim, o corte de liberação: corte a tira na horizontal, de 2,5 a 5 centímetros abaixo do plano do furo. Pelo relatório de Michigan, o furo se faz pelo lado oposto ao da inclinação.
Mas espere. Furar com a ponta do sabre não é justamente usar a zona de rebote, o quadrante superior da ponteira, que vimos lá atrás, na faixa do rebote? O Forest Service lembra que o rebote é em geral causado pelo uso errado da ponta do sabre. Então como se entra no tronco com ela? E a Husqvarna ensina o mesmo furo, ou do jeito dela?
Entre com a parte de baixo da ponta, nunca com a de cima. Com a ponta enterrada, gire o sabre até ficar paralelo à dobradiça. A Husqvarna manda entrar em aceleração máxima. A variante dela, para inclinação moderada: fure até cerca de 60 por cento do diâmetro, corte para frente até a dobradiça, depois para trás até sobrarem uns 5 centímetros, repita do outro lado e corte a quina por trás, que em árvore média fica com 5 a 10 centímetros. O ganho: você acerta a dobradiça antes de comprometer a queda, e o último corte é de trás, longe dela, com tempo de sair.
E as cunhas? Quem acompanha uma derrubada ouve a batida do machado ou da alavanca na cunha, ali atrás, no corte de abate. Para que elas servem de verdade, quando entram no corte e de que material são feitas? Quantas levar para a obra? E elas funcionam em qualquer árvore, até numa podre ou oca?
A cunha redistribui o peso na direção desejada e impede que o sabre fique preso. É de plástico ou magnésio, nunca de aço, que estraga a corrente. Entra antes de terminar o abate; a Husqvarna manda colocá-la depois de serrar metade do diâmetro. O Forest Service recomenda ter pelo menos três cunhas, e fala em duas cunhas com vento. Na alavanca, costas retas e força nas pernas. Em árvore podre ou oca, a Husqvarna não usa cunha: derruba na direção natural, ou segura com corda ou guincho. Feito o abate, saia na hora pela rota de fuga. E isso se aprende com instrutor, prática e a capacitação da NR 12.
Para levar: Um, árvore inclinada para frente não leva corte de abate comum, de trás para frente; leva furo e tira de segurança. Dois, o furo entra com a parte de baixo da ponta, e o corte de liberação é feito já virado para a rota de fuga. Três, cunhas de plástico ou magnésio, pelo menos três à mão, e nenhuma em árvore oca.